miniA terapia cognitiva, também conhecida como terapia cognitiva comportamental* (Cognitive-Behavior Therapy, CBT) é um tipo específico de psicoterapia que enfatiza a importância dos processos cognitivos na compreensão e no tratamento de diversos transtornos mentais. A terapia cognitiva é estruturada para ter uma duração curta e se baseia na teoria cognitiva, uma teoria composta por 10 axiomas formais que embasam teoricamente diversos modelos e aplicações na prática clínica [2]. Alguns autores defendem que esta abordagem oferece um arcabouço conceitual sobre o qual diversas abordagens psicoterapêuticas poderiam ser integradas [2].

A teoria cognitiva pode ser entendida como uma “teoria das teorias” que as pessoas possuem sobre a sua realidade [2], ou seja, uma teoria sobre as influências que as construções particulares de significado da realidade têm no comportamento mal-adaptativo de pessoas que apresentam algum transtorno.

Desenvolvida por Aaron Beck no final dos anos 1950, esta especialidade se tornou de lá para cá uma das psicoterapias mais investigadas empiricamente e com mais evidências científicas de eficácia [1].  Muitas evidências indicam a sua eficácia para diversos quadros como transtorno depressivo maior, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de pânico, fobias, abuso de substâncias, transtornos alimentares, problemas de casais, transtorno obsessivo-compulsivo, dor crônica, transtorno de personalidade, transtornos do sono e outros quadros.

Mais recentemente, têm sido publicadas evidências de que a terapia cognitiva pode ser um eficiente complemento no tratamento de sintomas da esquizofrenia [1]. Um artigo recentemente publicado na Archives of General Psychiatry, por exemplo, traz o relato de um estudo randomizado onde uma intervenção de 18 meses indicou evidências de maior eficácia no tratamento quando houve uma intervenção de terapia cognitiva como um complemento no tratamento padronizado de esquizofrenia, em comparação com um grupo de pacientes que só passaram pelo tratamento padronizado [3]. Trata-se, portanto, de um sistema de psicoterapia embasado por evidências advindas de diversos estudos controlados, em diversas culturas e para diversos transtornos.

A teoria que embasa a terapia cognitiva propõe simplificadamente que a maneira como representamos a realidade ativa motivações, emoções e processos cognitivos associados que, por sua vez, influenciam as nossas ações, ou seja, dependendo da maneira como interpretamos aspectos da nossa realidade, teremos, por exemplo, reações emocionais diferenciadas que nos induzirão a tomar diferentes cursos de ação [2]. Ao longo de nossas histórias de vida, formamos diferentes estruturas de significado (esquemas) que por sua vez influenciarão a maneira como interpretaremos a realidade e formaremos novos esquemas. A terapia cognitiva afirma que os esquemas disfuncionais resultantes desta história de vida são comuns a todos os transtornos mentais e que a modificação destes esquemas costuma resultar em mudanças no humor e no comportamento das pessoas [1].

Para esse fim, diversas técnicas e procedimentos podem ser usados a depender do tipo de transtorno e das individualidades do paciente. Entretanto, alguns aspectos básicos servem como diretrizes gerais na maneira como um terapeuta cognitivo deve lidar com seus pacientes. A terapia cognitiva enfatiza a importância fundamental da colaboração entre paciente e terapeuta para que avanços substanciais possam ocorrer. Através de técnicas como o questionamento socrático e a descoberta guiada, paciente e terapeuta devem construir uma relação que permita o desenvolvimento de habilidades cognitivas, metacognitivas e sociais fundamentais para um processo terapêutico efetivo.

Procurarei aprofundar, em textos futuros, alguns aspectos particulares da terapia cognitiva, assim como importantes aplicações da mesma para problemas que a maioria das pessoas enfrenta diariamente, como a depressão, a ansiedade e problemas de sono. Apesar de algumas informações que discutirei poderem ser aplicadas imediatamente no seu dia-a-dia, nenhuma destas informações pode substituir a atuação de um profissional qualificado e competente que possa avaliar a sua condição específica, portanto, caso você esteja enfrentando algum problema desta natureza, recomendo que busque a ajuda de um profissional (certamente eu indicaria profissionais que trabalhem com terapia cognitiva, mas também existem outras abordagens psicoterapêuticas eficazes que valem a pena ser cogitadas). Para mais informações sobre terapia cognitiva, recomendo o site da Associação Brasileira de Psicoterapia Cognitiva (ABPC) e do Instituto de Terapia Cognitiva (ITC), além da página do Instituto Beck.

*Existem diversos tipos de terapias, consideravelmente diferentes, que são classificados como “terapias cognitivo-comportamentais”, portanto se você já ouviu falar destas, o que você leu não necessariamente era sobre a “terapia cognitiva” abordada aqui.

Referências:

[1] Beck, J. S. (1998). Terapia cognitiva: Teoria e prática. Porto Alegre: Artmed.

[2] Beck, A. T., & Alford, B. A. (2000). O poder integrador da terapia cognitiva. Porto Alegre: Artmed.

 


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